Se não houver uma ação para proteger a tribo dos Awá, eles têm poucas chances de sobreviver, enfrentando homens armados e madeireiros ilegais.
Por Danielle Ferreira
Especial para Caros Amigos
Em novembro a mineradora Vale obteve licença do Ibama para iniciar obras na Estrada de Ferro Carajás, que vai do interior do Pará até o litoral do Maranhão. Os trilhos serão duplicados em cerca de 560 quilômetros da ferrovia para facilitar o transporte da produção de minério de ferro. O projeto Serra Sul, ou S11D, terá capacidade de extrair 90 milhões de toneladas por ano e, de acordo com a Vale, é o 'maior e melhor projeto de minério de ferro do mundo'. A obra, que vai gerar 8.645 empregos no auge dos trabalhos, certamente terá um grande impacto ambiental, por isso indÃgenas que serão afetados pela expansão da ferrovia tentam reverter a situação.
Os Awá são considerados 'a tribo mais ameaçada do mundo' pela ONG Survival International, e, mesmo após quase 50 mil mensagens enviadas por manifestantes ao Ministro da Justiça, não há uma ação direta do governo brasileiro para proteger estes indÃgenas. |
Em agosto deste ano, a Justiça Federal suspendeu as obras e determinou que o Ibama tornasse o processo de licenciamento mais claro. Outro revés para a Vale aconteceu em outubro, quando indÃgenas bloquearam a ferrovia durante três dias em protesto contra a portaria 303 da Advocacia Geral da União, que dificulta a expansão dos territórios indÃgenas. A autorização do Ibama afirma que as obras próximas aos territórios indÃgenas Caru e Mãe Maria, no Maranhão, deverão ser iniciadas apenas após 'manifestação a ser expedida pela Funai'.
No entanto, membros das tribos que vivem na área não estão otimistas, pois a ferrovia representa uma ameaça para muitos deles. A tribo 'Awá', que teve um dos seus territórios, de mesmo nome, homologado em 2005, vive com a constante ameaça de madeireiros ilegais e pistoleiros. Cerca de 30% dessa terra indÃgena de 117.000 hectares, localizada no centro-norte do Estado do Maranhão, já foram desmatados.
Os Awá são considerados 'a tribo mais ameaçada do mundo' pela ONG Survival International, e, mesmo após quase 50 mil mensagens enviadas por manifestantes ao Ministro da Justiça, não há uma ação direta do governo brasileiro para proteger estes indÃgenas. A Funai afirma, em seu website, que tem realizado 'sistematicamente ações de vigilância' nas terras indÃgenas da região. Essas ações são insuficientes e, cansados de esperar, Ãndios da tribo Awá foram a BrasÃlia em novembro para protestar.
Histórico de violações
Na década de 1980, quando a Estrada de Ferro Carajás foi construÃda, diversos Ãndios Awá foram deslocados para assentamentos, já que a estrada iria passar pela região onde eles moravam. A obra iniciou a interação dos Awá com não-indÃgenas, e sua falta de planejamento foi desastrosa para a tribo. Epidemias fatais de malária e gripe, doenças contra as quais eles não tinham imunidade, foram levadas aos Awá; uma comunidade de 91 Ãndios foi reduzida a 25 quatro anos depois.
Um Ãndio da tribo Awá, do Maranhão, questiona: 'Será que a Vale vai trazer alguma coisa boa ou ruim para nós? Essa Vale foi quem cortou nossa terra, território, bem no meio, acabando a natureza e nossa floresta. Eu penso agora, mas para que a Vale vai aumentar a ferrovia?' Os Ãndios também afirmam que o barulho causado pelos trens é prejudicial à s atividades de caça, pois espanta os animais.
A terra 'Awá' está situada entre outras duas terras indÃgenas: Alto Turiaçu e Carú, onde vivem também as etnias Kaapor e Tembé. Ao sul destes três territórios está a terra indÃgena Araribóia, onde vivem os Ãndios Guajajara, assim como dezenas de Awá 'isolados'. O número de membros da tribo Awá vivendo nesses territórios seria de aproximadamente 460 Ãndios.
Não é possÃvel obter dados demográficos exatos porque os Ãndios 'isolados' não têm contato com os não-indÃgenas, vivendo apenas na floresta. Estes Ãndios são obrigados a fugir constantemente de invasores, e como a própria Funai afirma, trabalhos para localizá-los feitos em 2008 e 2009 confirmaram o 'alto grau de vulnerabilidade em que se encontravam frente ao avanço das atividades madeireiras em seu território'.
A história do Awá chamado Karapiru mostra como a ação de invasores pode ser prejudicial aos Ãndios. Ele viu sua famÃlia ser assassinada por pistoleiros, foi ferido, mas conseguiu fugir. Karapiru andou pela floresta sozinho durante 10 anos, até entrar em contato com uma famÃlia de uma fazenda na Bahia. Hoje ele vive com outros Awá e afirma: 'Eu espero que quando a minha filha cresça ela não enfrente nenhuma das dificuldades que eu tive. Eu espero que tudo seja melhor para ela.'
Se não houver uma ação para proteger os Awá, eles têm poucas chances de sobreviver, enfrentando homens armados e madeireiros ilegais. Assim como outras tribos brasileiras, os Awá não podem ser ignorados pelas autoridades. O Ibama não se pronunciou sobre a duplicação da ferrovia até o fechamento desse artigo.

